As mesmas brigas de sempre: por que alguns conflitos não se resolvem?

Conflito Brigas de Casal
5–7 minutos

Você já teve a sensação de estar tendo a mesma discussão pela décima vez?

Talvez seja sobre dinheiro, organização da casa, tempo juntos, necessidade de espaço ou sobre a maneira como cada um demonstra afeto.

Independentemente do tema, são discussões repetitivas e cansativas, que parecem seguir sempre o mesmo roteiro.

Por um tempo, pode até existir a impressão de que o problema foi resolvido. Até que ele ressurge, como se nunca tivesse ido embora.

Quando os mesmos conflitos se repetem em um relacionamento, é comum pensar que existe algo errado: dificuldade de negociação ou comunicação, falta de disposição para mudar ou até mesmo falta de compatibilidade.

Mas existe outra possibilidade:

você pode estar diante de um conflito perpétuo da relação.

Resolver X Gerenciar Conflitos

Em seu trabalho sobre relacionamentos, John Gottman e Julie Gottman propõem uma mudança interessante na maneira de pensar os conflitos: em vez de falar apenas em resolver conflitos, enfatizam a importância de gerenciá-los.

Isso porque o conflito não é, por si só, sinal de que um relacionamento está funcionando mal. Para os autores, conflitos são naturais e inevitáveis e também podem cumprir funções importantes, como ajudar os parceiros a compreender melhor o mundo emocional um do outro, lidar com mudanças e renovar a relação ao longo do tempo.

Tendo isso em mente, podemos avançar à ideia de que nem todo conflito é igual.

Problemas solúveis e problemas insolúveis

Didaticamente diferenciamos aqui os conflitos sobre problemas solúveis e insolúveis.

Os problemas solúveis são aqueles em que existe uma solução possível para determinada situação.

Quem vai fazer determinada tarefa?

Como dividir uma despesa?

Que horário funciona melhor para os dois?

Nesses casos, conversar, negociar e chegar a um acordo pode realmente encerrar aquela questão.

Mas há conflitos que não dizem respeito apenas a uma situação específica. Eles envolvem diferenças mais duradouras entre as pessoas.

  • Uma pessoa pode precisar de mais proximidade, enquanto a outra precisa de mais espaço.
  • Uma pode gostar de planejar tudo, enquanto a outra prefere espontaneidade.
  • Uma pode valorizar muito a vida social, enquanto a outra prefere passar mais tempo em casa.

Não necessariamente existe uma solução capaz de fazer uma dessas diferenças desaparecer.

É esse tipo de situação que Gottman e Gottman descrevem como problemas perpétuos: conflitos relacionados a diferenças fundamentais de personalidade, preferências ou necessidades que permanecem ao longo do tempo.

E talvez seja justamente por isso que algumas brigas pareçam ser “as mesmas de sempre”.

Quando os mesmos conflitos se repetem

Os autores chegaram a essa compreensão a partir de diferentes estudos, incluindo uma análise detalhada de 960 conflitos de laboratório. Em sua pesquisa longitudinal, casais eram acompanhados ao longo dos anos e entrevistados sobre os conflitos presentes em seus relacionamentos.

Quando eram convidados a falar sobre uma área de desacordo contínuo, 69% das vezes a discussão envolvia um problema perpétuo que já havia sido observado anteriormente. Esses problemas estavam relacionados a diferenças fundamentais entre os parceiros, como aspectos da personalidade ou necessidades importantes para a definição que cada pessoa tinha de si mesma.

Isso não significa que 69% das discussões sejam inúteis, nem que esses casais estejam destinados a permanecer infelizes.

Significa que uma parte significativa dos conflitos que se repetem em relacionamentos está relacionada a diferenças que não podem ser simplesmente eliminadas por meio de uma boa conversa.

E isso muda a maneira de olhar para essas discussões.

Quando uma diferença é percebida como algo que precisa necessariamente desaparecer, cada pessoa pode acabar tentando convencer a outra de que sua maneira de enxergar a situação é a correta.

A discussão deixa de ser sobre encontrar uma forma possível de convivência e passa a ser sobre fazer o outro mudar.

É nesse ponto que o conflito pode “travar” a relação.

Quando não existe uma solução definitiva

Nos estudos dos Gottman, os casais podiam estar “travados” (gridlocked) diante desses problemas ou conseguir permanecer em diálogo sobre eles.

Os casais que estavam em diálogo não haviam necessariamente eliminado suas diferenças. Eles haviam aprendido a aceitá-las e a conversar sobre elas sem permanecer presos ao mesmo impasse.

Afinal, quando estamos diante de algo que toca necessidades importantes ou aspectos fundamentais de quem somos, ceder pode não parecer apenas uma negociação.

Pode parecer abrir mão de uma parte de nós mesmos.

Os Gottman relatam que, nos conflitos em que os casais ficam travados, o compromisso pode ser percebido dessa maneira: como se fosse necessário abrir mão de uma parte da própria personalidade ou de uma necessidade essencial apenas para preservar a paz na relação.

Por isso, uma discussão aparentemente pequena pode carregar um significado muito maior.

E se houver algo além daquilo que estamos discutindo?

Uma pessoa diz:

“Você nunca quer fazer nada comigo.”

Talvez esteja tentando dizer:

“Eu preciso sentir que sou importante para você.”

A outra responde:

“Você não me deixa ter meu próprio espaço.”

E talvez esteja tentando dizer:

“Eu preciso sentir que posso continuar sendo eu dentro dessa relação.”

É possível, então, que o casal esteja discutindo sobre sair de casa ou sobre ter espaço, mas, ao mesmo tempo, esteja tentando proteger necessidades muito mais profundas.

Nesses casos não faz sentido procurar por quem está certo ou errado.

Mas sim o que esse posicionamento significa para cada um.

Os “sonhos” por trás do conflito

Foi a partir dessa compreensão que os Gottman desenvolveram a ideia de “sonhos dentro do conflito”.

Segundo os autores, por trás da posição que cada pessoa assume em um conflito pode existir um propósito mais profundo: um “sonho” sobre como gostaria que o mundo fosse em relação àquela questão.

A proposta é compreender o significado daquela posição e encontrar maneiras de respeitar os sonhos e as necessidades fundamentais de cada pessoa.

Isso não significa que qualquer comportamento deva ser aceito ou que todas as diferenças possam ser conciliadas.

Mas tentar olhar para além da superfície da discussão.

Em vez de perguntar apenas:

“Quem precisa ceder?”

podemos perguntar:

“O que está sendo defendido aqui?”

“Por que isso é tão importante para você?”

“O que você teme perder se abrir mão dessa posição?”

E também:

“O que existe de importante para mim nessa discussão?”

Essas perguntas não eliminam necessariamente o conflito. Mas podem ajudar a transformar a maneira como o casal se relaciona com ele.

Nem todo conflito de casal precisa terminar com alguém cedendo e alguém vencendo.

Alguns problemas podem ser resolvidos.

Outros precisam ser negociados.

E alguns precisam ser compreendidos, aceitos e continuamente dialogados.

Para os Gottman, diante da maioria dos conflitos relacionados a problemas perpétuos, o objetivo não é necessariamente alcançar uma resolução definitiva, mas construir um diálogo duradouro e pacífico sobre aquilo que permanece diferente entre os parceiros.

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Isabela Cazé Psicóloga em Curitiba

Referência:

GOTTMAN, John; GOTTMAN, Julie. The natural principles of love. Journal of Family Theory & Review, v. 9, n. 1, p. 7-26, 2017. 


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